Mandei adicionar quatro espécies na incursão brasileira essa semana: caramelo, arara-azul, capivara e mico-leão-dourado. Nenhuma delas é figura de mito. As quatro são fauna real, do jeito que qualquer brasileiro reconhece na hora — e é exatamente por isso que elas importam tanto quanto a Mula Sem Cabeça, se não mais.

Já expliquei em outro post por que Cuca e Saci ficaram de fora: os dois reprovam no teste de descarte que escrevi para o projeto inteiro. O que eu não tinha explicado ainda é o outro lado dessa mesma regra — a parte que diz que fauna e flora regionais entram direto, sem cerimônia nenhuma, porque não são personagens. São bases genéricas com paleta, geografia e comportamento próprios. O Brasil tem a maior biodiversidade do planeta. Não falta matéria-prima. Sobra. O trabalho é escolher.

As quatro, com o número que decide cada uma

Mico-leão-dourado. Salta 4 metros na vertical a partir do repouso absoluto — aceleração que exigiria 30 vezes a massa muscular medida no espécime. É CINÉTICO, e é a única das quatro que entrou como Caso-Limite: solo, sem família, sem deriva. Não decidi isso pensando conscientemente na espécie real, mas faz sentido depois do fato — mico-leão-dourado é símbolo internacional de conservação, criticamente ameaçado, o tipo de animal que existe no singular na cabeça de quem já ouviu falar dele. Um Caso-Limite nunca vira família. Coincidência boa.

Arara-azul. Sustenta voo nivelado com carga alar três vezes acima do limite teórico da própria envergadura, ganhando altitude em ar completamente estático — isso não deveria ser aerodinamicamente possível, e é exatamente o tipo de violação que a classe AERO existe para descrever. Família de três estágios completa. Nenhuma outra ave do roster tem uma silhueta tão imediatamente reconhecível quanto psitacídeo grande de plumagem azul-cobalto.

Capivara. Mantém 300 volts de diferença de potencial entre o focinho e a garupa, em repouso, na linha d'água, sem eletrólise mensurável — CARGA. É o maior roedor do planeta na vida real, e no jogo virou uma família de dois estágios só, sem terceira deriva. Prefiro isso a forçar um terceiro estágio que não tem pra onde crescer.

Caramelo. Esse é o melhor dos quatro, e não é disputa. Consta em registros fotográficos autenticados datados de até 60 anos antes do próprio nascimento, sempre no mesmo padrão de pelagem — é TEMPO, sequência e causalidade fora de ordem, aplicado a um vira-lata caramelo comum. Se você é brasileiro, já viu a piada de internet: alguém acha uma foto da família de décadas atrás e lá está ele, o mesmo cachorro caramelo, olhando pra câmera como se sempre tivesse existido. Eu não inventei essa piada. Ela já existia, era só folclore contemporâneo esperando alguém levar a sério o suficiente para virar regra quebrada.

A regra que decide quem ganha nome de campo, e quem não ganha

Aqui está o detalhe que eu acho mais bonito do lote inteiro: das quatro, só o Caramelo tem nome de campo. Arara-azul, capivara e mico-leão-dourado entram só com designação — o binômio formal do Registro, sem apelido popular anexado. Não é falta de carinho. É a regra que já vale para o resto do jogo: nome de campo só existe onde houve testemunho registrado. Fauna sem relato tem apenas designação.

Arara-azul, capivara e mico-leão-dourado são animais que todo brasileiro reconhece, mas ninguém tem uma história específica de "avistei isso e aquilo aconteceu" grudada neles — são fama de identificação, não fama de relato. O Caramelo é diferente: a piada de internet É o testemunho. É recente, é coletivo, é datado (a onda de "geração vira-lata caramelo" tem um momento identificável de origem), e cumpre exatamente o mesmo critério que fez a Mula Sem Cabeça e o Anhangá ganharem nome de campo — só que em vez de carta jesuítica de 1560, a fonte é um meme de 2020. A Ordem não distingue relato antigo de relato recente. Distingue relato de ausência de relato.

O erro que eu quase deixei passar

Duas famílias vizinhas no roster começam com o mesmo prefixo por acidente de sonoridade: a família da capivara (Capira → Capivolt) e uma família de touceira de capim sem nenhuma relação com o roedor (Capinel → Capivergo), que fica logo depois na tabela. Nenhuma das duas foi nomeada pensando na outra — "capivara" vem do tupi, "capim" também, e as duas raízes colidiram sem eu perceber até revisar a lista inteira de uma vez. Não é erro que quebra sistema nenhum, mas é o tipo de coisa que confunde jogador novo lendo rápido, e ainda não decidi se troco um dos dois nomes ou deixo a coincidência como está — capim e capivara nascerem da mesma raiz tupi não é exatamente falso, então talvez a colisão seja, sem querer, mais honesta do que problemática.

O que ainda não escrevi

A piada do Caramelo — foto antiga, mesmo cachorro, antes de nascer — está no roster como número mecânico e como uma linha de nome de campo. Não está, ainda, como texto de quest ou entrada de Registro que realmente conte a piada do jeito que ela merece ser contada. Escrever isso direito, sem que pareça que a Ordem está fazendo humor por cima de vocês, é trabalho que ainda não fiz. Prefiro publicar o bicho hoje e escrever a piada direito depois, do que segurar os dois por mais um ciclo só para lançar tudo junto.