Quando comecei a desenhar a incursão brasileira — a primeira incursão temática do jogo depois do beta, chamada O Interior — a primeira lista de candidatos que rascunhei tinha Saci-Pererê e Cuca no topo. São, sem dúvida, as duas figuras de folclore mais reconhecíveis do país. E as duas foram descartadas, sem exceção, pela mesma régua de quatro testes que eu escrevi para o projeto inteiro antes de começar a autorar qualquer incursão.
O teste, e por que ele existe
Antes de qualquer arte começar, toda figura candidata precisa passar por quatro perguntas. A figura representa um humano ou grupo humano? A identidade dela está presa a etnia, raça, nacionalidade, gênero ou religião praticada? A base genérica óbvia para essa figura já foi usada, historicamente, como insulto contra esse grupo? A forma reconhecível é criação autoral identificável, mesmo que o mito de origem seja antigo? Se qualquer uma dessas respostas for sim, a figura é descartada, sem debate, antes de qualquer arte começar.
Saci: reprova nas três primeiras, sem margem
Saci é um menino. É negro. E a base genérica óbvia para "figura de perna só, travessa, do mato" — se eu tentasse desenhar isso sem o rosto humano, a base mais próxima seria algo como primata — leria, de forma quase inevitável, como caricatura racista. Não existe versão dessa figura que passe pelo meu próprio filtro sem eu correr o risco de reproduzir exatamente o tipo de imagem que decidi, por princípio, nunca colocar no jogo. Reprova em três dos quatro testes. Não reabro essa discussão.
Cuca: reprova, e a pesquisa trouxe um bônus que eu não esperava
Cuca também é descartada, mas pelo primeiro teste: ela é uma bruxa. Velha, humana, com cabeça de jacaré — não um jacaré. A cabeça de jacaré, além disso, é invenção de Monteiro Lobato, um texto que já está em domínio público há alguns anos, mas a imagem que a maioria das pessoas realmente reconhece — cabelo louro, garras de gavião — é design autoral de uma série de TV brasileira dos anos setenta, ainda protegido. E tem uma camada a mais que eu só descobri pesquisando: a Cuca nem é brasileira de origem. Ela vem da Coca galego-portuguesa, o dragão de São Jorge, importada para cá no período colonial e naturalizada com o tempo até parecer nossa.
Isso não muda o veredito — ela continua reprovando por ser humana — mas mudou como eu penso sobre "folclore brasileiro" de um jeito que não esperava quando comecei essa pesquisa. Uma figura que eu tinha certeza absoluta de que era nossa, de raiz, é na verdade um dragão europeu com nome trocado e camadas de autoria em cima, umas sobre as outras, por duzentos anos.
Uma terceira descartada, pelo motivo mais delicado da lista
Caipora também ficou de fora, mas não pela razão fácil. Ela é entidade guardiã da mata na cosmologia Tupi-Guarani — geralmente descrita como pequena, de pele escura, montada num queixada, às vezes com um pé só virado para trás. Isso já reprova sozinho no primeiro teste: a forma que qualquer ilustração historicamente usa é humanoide. Mas a razão real para eu nem chegar a debater silhueta é outra, e é a mesma que me fez deixar a mitologia aborígene australiana inteira fora do mapa de incursões: cosmologia indígena viva não é a mesma categoria de "lenda europeia secular de domínio público". É tradição praticada, com custódia real, e eu não tenho como saber, sem consulta cultural de verdade, se colocar Caipora no jogo é homenagem ou apropriação. Curupira recebeu o mesmo tratamento, pelo mesmo motivo. Boitatá é o único caso da família que atravessou para o roster — mas só como cobra que emite luz, com o nome de campo apoiado numa carta jesuítica catalogada de 1560, não na figura de guardião do fogo que a tradição oral carrega. É a diferença entre citar um registro histórico datado e ilustrar uma crença ainda praticada, e eu trato as duas coisas como categorias diferentes de risco.
O que passou: Mula Sem Cabeça
A origem da lenda é humana — uma mulher amaldiçoada — mas a forma que qualquer pessoa realmente visualiza, e a forma que vira sprite, é um equino. Sem cabeça, com fogo saindo do pescoço. Nenhuma dimensão étnica presa à figura, nenhuma base que já foi usada como insulto, nenhuma autoria moderna identificável competindo com a lenda popular. Passa nos quatro testes sem esforço, e é exatamente esse tipo de aprovação limpa que confirma que a régua está funcionando — ela não descarta tudo, só descarta o que realmente devia ser descartado.
A frase que decidiu, e por que eu concordo com ela
Quando levei essa lista para decisão final, a resposta foi direta: "Mesmo que seja uma figura forte de qualquer folclore, melhor omitir do que parecer o que não é." Eu concordo com isso mais hoje do que concordava quando comecei o projeto. É tentador, numa incursão que celebra o folclore brasileiro, querer colocar exatamente as figuras mais famosas — parece incompleto sem elas. Mas "parece incompleto" é um custo muito menor do que "parece caricatura", e a régua existe precisamente para impedir que eu tome essa decisão sob pressão de completude, num momento em que meu julgamento pessoal pode estar errado sem eu perceber.
O que sobra, e por que não é consolo — é o ponto real
A incursão inteira não precisa de nenhuma figura de mito para ter identidade. Mico-leão-dourado, jacaré, boto, onça, vitória-régia — fauna e flora regionais entram direto, sem cerimônia nenhuma, porque não são personagens, são bases genéricas com paleta e geografia próprias. É aqui que a identidade brasileira da incursão realmente mora, e ela sozinha já sustenta o roster inteiro. O nome de campo de alguma criatura pode, eventualmente, carregar um eco de Mula Sem Cabeça ou de outra figura aprovada — mas isso é bônus de lore em cima de uma base que já funcionava sem precisar dele. Se um dia eu precisar checar se uma incursão nova está se apoiando demais em mito e de menos em fauna real, essa é a régua: a fauna sozinha já dá identidade? Se não der, a incursão está construída sobre enfeite, não sobre estrutura, e eu preciso refazer.